A dor pélvica crônica (DPC) é definida como dor pélvica não-cíclica, com duração de pelo menos seis meses e severa o suficiente para causar limitação ou requerer tratamento médico, segundo American College of Obstetricians and Gynecologysts ou como dor do abdome ou na pelve, de caráter contínuo ou intermitente, com duração superior a 6 meses, segundo Sociedade Internacional de Dor Pélvica (IPPS).

A DPC é caracterizada como síndrome, devido aos vários sintomas que acompanham esta doença. Afecções psicoemocionais, urológicas, gastrintestinais, neurológicas, ortopédicas-musculoesqueléticas e ginecológicas podem coexistir.

EducasusAs diversas formas diagnósticas e tratamentos da DPC, bem como outros temas de interesse comum poderão ser visualizados no site www.educasus.org.br que a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa disponibiliza a todos.

Confira abaixo a transcrição do evento realizado com o Dr. Aoki no dia 13/04/09:

  1. O Prof. Dr. Tsutomu Aoki inicia a videoconferência dizendo que era um prazer estar participando e colaborando, no sentido de troca de experiências, tanto com a Faculdade como com todas as entidades envolvidas no Projeto. Disse também que iria falar sobre um assunto de utilidade ímpar, porque envolve muitas pessoas, no caso, como médico ginecologista, iria falar sobre as mulheres. Lembrou que pelo menos 60% das pacientes apresentam dores pélvicas crônicas e, dessa forma, relataria um caso Clínico relacionado ao tema;
  2. Dr. Aoki começa relatando o Caso Clínico: “Id: ANL, 38 anos, casada, católica, operadora de telemarketing e natural de São Paulo. QD: Dor pélvica diária há cinco anos. HPMA: Paciente relata que há cinco anos iniciou uma dor pélvica tipo “aperto”, de forte intensidade, que melhora parcialmente com o uso de Butilescopolamina®. Refere dor constante que piora com a menstruação. Queixa-se de dispareunia de profundidade e nega dor ao evacuar. Faz acompanhamento neste serviço desde agosto de 2006, sendo medicada com Desogestrel® neste período com melhora parcial da dor.” Houve questionamentos entre médicos e residentes sobre os casos para identificação da dor pélvica, para verificar se era ginecológica ou não. Dr. Aoki ressaltou ainda, que o mais importante desde a identificação, seria a faixa etária, o trabalho que a paciente executa, e o tipo de queixa. O diagnóstico encontrado foi de endometriose profunda;
  3. Exame Físico: Especular: Conteúdo vaginal fisiológico, vagina com rugosidade preservada, colo epitelizado, voltado posteriormente, bojudo com OE em fenda transversa. Toque vaginal: Vagina trófica e larga. Colo posterior, fibroelástico, hipertrofiado, impérvio, indolor a mobilização e com espessamento paracervical na região de fórnice póstero-lateral esquerdo. Útero em AVF, móvel, intrapélvico, discretamente doloroso à palpação bimanual. Toque retal: Esfíncter anal normotônico e mucosa retal deslizante. Nota-se espessamento doloroso em região anterior do reto, distando cerca de 5,0 cm da borda anal. Dr. Aoki ressaltou que o caso foi questionado entre sua equipe, e a hipótese diagnóstica principal foi de uma endometriose, possivelmente com alterações no ligamento útero sacral esquerdo, apresentando alguma analogia na região anterior do reto com hipótese de alguma doença retal;
  4. Dr. Aoki comentou sobre a importância de definir a DOR PÉLVICA CRÔNICA “É uma dor pélvica não cíclica, com duração de pelo menos seis meses e severa o suficiente para causar limitação ou requerer tratamento médico”. Complementando, lembrou que é sempre um enigma a dor pélvica. Muito se tem falado sobre isso, pois envolve em média 10% de todo o tipo de dor pélvica referida pela mulher. Frisou que a DOR PÉVICA PODE APRESENTAR as seguintes causas: Urológicas; Gastrintestinais; Ortopédicas e/ou Musculoesqueléticas; Neurológicas; Psiquiátricas e/ou Psicológicas; Ginecológicas. UROLÓGICAS: Cistite intersticial; Pólipos uretrais; Síndrome uretral; Infecção urinária crônica; Cálculo renal; Tumor vesical; Divertículo uretral e Rim pélvico. Dentro das causas Gastrintestinais, destacam-se: Síndrome do cólon irritável; Doença inflamatória intestinal; Apendicite crônica; Constipação; Verminose e Intolerância alimentar. As Ortopédicas e/ou Musculoesqueléticas são: Dor miofascial (pontos de gatilho); Dor do assoalho pélvico e espasmos pélvicos; Fibromialgia; Dor lombar mecânica; Hérnias; Doenças dos discos vertebrais; Síndrome dos nervos encarcerados; Osteíte púbica e Fratura de estresse da pelve. Causas Neurológicas: Neuralgia Pós-herpética; Neuroma incisional; Hiperalgesia incisional; Neuralgia do pudendo; Constipação crônica e Congestão pélvica. Dr. Aoki comentou também que um dado importantíssimo são as causas Psiquiátricas e/ou Psicológicas: Depressão; Psicossomáticas; Abuso físico ou sexual (prévio ou atual); Distúrbios do sono e Abuso de substâncias (álcool, opióides, drogas ilícitas). As causas Ginecológicas são: Dor ovulatória; Endometriose e/ou Adenomiose; Aderências pélvicas; Miomatose uterina; Malformações müllerianas; Doença inflamatória pélvica (DIP); Retroversão uterina; Tumores ovarianos; Congestão pélvica; Câncer pélvico e Vulvodínia. Ressaltou que cerca de 60% dos casos apresentam dor crônica, além de ocorrer presença de miomas, os quais também ocasionam dor pélvica. Lembrou ainda que vários aspectos da endometriose também podem proporcionar a dor;
  5. Dr. Aoki frisou que o mais importante no DIAGNÓSTICO da Dor Pélvica Crônica é o histórico da paciente, incluindo desde a identificação em relação ao seu trabalho, que neste caso é “Operadora de Telemarketing”. Comentou também que o exame físico geral e ginecológico realizado no abdômen e na parte inferior é importantíssimo, ou seja, algum ponto de gatilho pode detectar algum tipo de dor. Relacionou outros exames complementares gerais que também são importantes para se chegar a um diagnóstico mais preciso, como: Citologia ecto e endocervical, tentando mobilizar o útero; Culturas cervicais: micoplasma, ureaplasma, gonococo e clamídia; Hemograma completo; Parasitológico de fezes; Urina tipo I e cultura; Marcadores tumorais: CA125; Pesquisa de sangue oculto nas fezes; Ultrassonografia pélvica transvaginal; Laparoscopia diagnóstica. Exames complementares especializados: Raios-X: Enema baritado de duplo contraste; Retossigmoidoscopia e/ou colonoscopia; Ecocolonoscopia (US trans-retal e colonoscopia); Ultrassonografia de abdome total e/ou região pélvica; Uretrocistoscopia; Urografia excretora; Raios-X e/ou tomografia de coluna toracolombar e lombossacra; TC e RM: ressonância magnética da região pélvica e Laparoscopia;
  6. Dr. Aoki levantou algumas questões com relação ao objetivo do Tratamento da Dor Pélvica Crônica. O principal objetivo é: Alívio da dor; Tratamento das causas identificáveis; Restaurar a função normal e minimizar a incapacidade; Prevenção da incapacitação. Complementou ainda que o Tratamento da dor Pélvica Crônica é um tratamento MULTIDISCIPLINAR, no qual é importante a Relação médico-paciente, de tal forma que a paciente se sinta à vontade para relatar seu caso. Fatores envolvidos: Farmacológicos; Neuroablativos; Psicológicos; Fisioterapia. Lembrou ainda sobre a Terapia complementar, que pode ser realizada através de técnicas de relaxamento, meditação, acupuntura. Disse que 50% das pacientes apresentam doenças psicológicas primárias, ou seja, esta paciente deve ser muito bem estabelecida. Calcula-se que cerca de 10% das pacientes apresentam este distúrbio, chegando-se a um “tratamento global” da paciente, ou seja, físico, mental e espiritual;
  7. Dr. Aoki fez uma ressalva quanto ao Tratamento Clínico da DOR PÉLVICA CRÔNICA (DPC). Finalizou o tema dizendo que a dor pode ser tratada através de: AINHs; Opióides; Análogo GnRH; Antidepressivos tricíclicos e anticonvulsivantes; Infiltração dos pontos-gatilhos e fisioterapia. Tratamento cirúrgico: Lise de aderências; Apendicectomia; Neurectomia pré-sacral e LUNA; Excisão de endometriose; Histeropexia, histerectomia e miomectomias; Ressecção de pólipos e miomas submucosos e Cirurgias anexiais. O doutor, então, abriu espaço para discussão e questionamentos entre as entidades participantes. Aproveitou para recomendar a seguinte Literatura sobre o tema: UP TO DATE on line -2008; American College of Obstetricians and Gynecologysts -2008; Ginecologia baseada em evidências – 2008 – Atheneu; Rotinas em ginecologia – 2006 – Artmed; Ginecologia – Guias de Medicina Ambulatorial e Hospitalar - UNIFESP – 2005 – Manole; Tratado de Videoendoscopia ginecológica – Crispi – 2008 – Atheneu;
  8. Prof. Dr. Eduardo Sadao Yonamine (Coordenador de Ensino à Distância de Telemedicina da FCMSCSP) tomou a palavra e fez alguns comentários sobre o tema, indagando se existe um índice para Dor Pélvica, ou seja, o quanto a dor atinge a população. Dr. Aoki prontamente respondeu: “A dor atinge, principalmente, as pacientes jovens (entre 20 e 25 anos), ou seja, na idade reprodutiva, as quais estão sempre relacionadas a estas alterações relatadas. A incidência está em torno de 3 % a 10% da população, o que é uma incidência muito alta.” Dr. Sadao passou a palavra às entidades participantes, as quais fizeram seus comentários, questionamentos e debateram sobre o tema, tendo obtido respostas muito pertinentes do Prof. Dr. Tsutomu Aoki. O debate poderá ser melhor acompanhado através do vídeo do evento que se encontra na página do projeto EDUCASUS www.educasus.org.br. Dr. Sadao agradeceu a presença de todos e deu por encerrada a sessão.


PARTICIPANTES NA FACULDADE:

Prof. Dr. Eduardo Sadao Yonamine (Coordenador de Ensino à Distância de Telemedicina da FCMSCSP)

ENTIDADES PARTICIPANTES:

SANTA CASA DE MIS. DE ITAPEVA (Dra. Vera Lucia Ferrari Abud, ginecologista da entidade, representando Dr. Gilberto Luiz Castro Vinhas, Cardiologista, Coord. Científico da entidade); IRM DA SANTA CASA DE MIS DE LORENA (Dra. Claudia Carvalho do Bonfim, representando Dr. José Waldyr Fleury de Azevedo, Pediatra, Coord. Científico da entidade); IRM DA SANTA CASA DE MIS DE MARÍLIA – não linkado (Dr. Rubens Tofano de Barros, Cirurgião Cardiovascular, Coord. Cientifico); IRM DA SANTA CASA DE MIS. DE PIRACICABA – não linkado (Dr. Walter Alonso Chécoli, Coord. Científico, Cardiologista); IRM DA SANTA CASA DE MIS DE SOROCABA (Dr. Aristides Camargo, Coord. Científico da entidade); IRM DA SANTA CASA DE MIS DE VOTUPORANGA - ausente (Dr. João Paulo de Lima Pedroso, especialista em cirurgia torácica, Coord. Científico da entidade); FEHOSP (Maria Fátima da Conceição, Gerente Técnica); HOSPITAL SÄO LUIZ GONZAGA - não linkado (Dr. André Ramos Neto, Ginecologista e Coord. Científico da entidade) e HOSPITAL GERAL DE GUARULHOS (não linkado).