Tempo para diagnóstico da endometriose, que leva em média oito anos, pode causar infertilidade
HUMBERTO MAIA JUNIOR, humberto.maia@grupoestado.com.br
A endometriose é uma doença que atinge entre 10% e 15% das mulheres, pode provocar dores terríveis e comprometer um dos sonhos femininos - a maternidade. Mas a maioria delas ignora a enfermidade a ponto de passar em média oito anos convivendo com ela sem saber disso. Quando decidem procurar um médico especialista, com idade média de 32 anos, pode ser tarde demais.
De cada cinco mulheres com dificuldade para engravidar, duas têm endometriose, caracterizada pela presença de células do endométrio (tecido que reveste o útero) em outros locais da pelve, fora da cavidade uterina, como trompas, ovários, bexiga ou intestino.
Na época da menstruação, o problema se agrava porque, “fora do lugar”, os focos da doença sofrem influência das variações hormonais e sangram nesse período como se estivessem dentro do útero. Como o sangue não tem para onde ir, a doença causa dor e, em alguns casos, infertilidade.
“É uma doença subdiagnosticada”, diz Tsutomu Aoki, diretor do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. “Antes do diagnóstico, algumas mulheres passam por pelo menos cinco médicos, que fazem outros diagnósticos (incorretos).” Aoki diz que a doença pode ser descoberta pelo exame de videolaparoscopia - intervenção cirúrgica pouco invasiva que também é utilizada para a retirada dos focos de endometriose ou, quando não é possível, na redução dos sintomas.
A doença pode começar a partir da menarca, a primeira menstruação. A cada ovulação, o problema vai evoluindo, aos poucos. Muitas vezes, a dor é confundida como consequência das cólicas menstruais. “Muitas mulheres não valorizam os sintomas”, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Endometriose, Maurício Abrão, responsável pelo setor de Endometriose do Hospital das Clínicas (HC), onde o número de mulheres atendidas aumentou de cerca de 1.200 em 2000 para pouco mais de 4 mil no ano passado.
São quatro os estágios da doença: mínimo, leve, moderado e grave. “Nos dois primeiros, a doença pode passar despercebida e a mulher pode engravidar, sem problemas”, diz o ginecologista da Santa Casa. “Nos graus 3 e 4, as alternativas são os tratamentos.”
Segundo o médico do setor de reprodução humana da Unifesp, Renato Fraietta, de mil casais atendidos, em 150 a infertilidade é resultado da endometriose. “Quando atinge as trompas, a única solução é a fertilização in vitro.”
Maurício Abrão, do HC, diz que a endometriose prejudica a infertilidade em até 60% das mulheres com a doença. “Alguns estudos mostram que é a principal causa de infertilidade no mundo.”
Ciclo
A endometriose é chamada de doença da mulher moderna. Segundo Abrão, no começo do século passado, uma mulher menstruava cerca de 40 vezes ao longo da vida. Isso ocorria porque elas tinham mais filhos - quando elas engravidam e amamentam, o ciclo menstrual é interrompido. “Hoje, a mulher menstrua cerca de 400 vezes na vida”, afirma.
O adiamento da maternidade teria contribuído para propagar a doença. “Hoje, as mulheres sabem que podem engravidar mais tarde”, diz o pesquisador do Instituto de Medicina Comportamental da Unifesp, Ricardo Monezi. Ele explica que, com a abertura no mercado de trabalho, elas deixaram a maternidade em segundo plano. “Na década de 60, a mulher que tinha filho aos 35 anos era chamava de ‘avó’. Hoje, muitas ocupam cargos de chefia e liderança e se satisfazem com isso. Aí fazem as contas, pesam os prós e contras e deixam de ser mãe mais cedo.”



